Elaborada com base em dados coletados pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), a radiografia do Poder Judiciário, publicada domingo e segunda-feira no Estado, revela que os problemas estruturais da instituição eram mais profundos e maiores do que se imaginava. E a prova inequívoca de tanta inépcia gerencial e de tanta desorganização administrativa está na recente descoberta de que os tribunais brasileiros não conseguiram dar baixa em cerca de 5 milhões de processos já julgados em caráter definitivo.
Nas estatísticas da Justiça, essas ações continuavam contabilizadas como pendentes de julgamento. Com isso, as partes envolvidas nesses litígios não conseguiam obter certidões negativas nos casos em que foram inocentadas. Réus absolvidos em processos criminais, por exemplo, ficaram com a ficha suja por longo tempo, o que certamente lhes dificultou a obtenção de emprego. Por sua vez, aparecendo como litigantes, muitas empresas decerto tiveram dificuldade de acesso a crédito, o que prejudicou seus negócios. Assim, além de reforçar a imagem de inépcia e de morosidade do Judiciário, a ausência da baixa em 5 milhões de processos causou vultosos danos morais e materiais a quem dependia da instituição para garantir direitos e defender interesses.
A radiografia da Justiça mostra ainda que muitos tribunais não informatizaram a distribuição de processos, não digitalizaram as ações, não se ligaram à internet e não adotaram sistema de gestão eletrônica em matéria de execução penal e acompanhamento das ordens de prisão temporária. Mais grave ainda, ela atesta as falhas das corregedorias, que têm a incumbência de zelar pela moralidade nos tribunais. Foi só depois que se adotou o controle externo da magistratura, por meio do CNJ, que se descobriu a existência de sofisticados esquemas de vendas de sentenças e manipulação de pareceres. Raramente essas irregularidades eram percebidas pelos corregedores.
Um esquema divulgado pelo Estado mostra como alguns juízes plantonistas nos Estados do Piauí, Bahia, Amazonas, Tocantins e Mato Grosso aproveitavam feriados e fins de semana para julgar e condenar bancos e grandes empresas, exigindo o pagamento imediato de indenizações milionárias sem notificar os advogados das partes condenadas. Em Goiás, uma magistrada foi afastada após conceder liminar, em seu plantão, autorizando o levantamento de R$ 12 milhões num processo contra a Petrobrás. Em Alagoas, um juiz determinou o pagamento imediato de R$ 63 milhões ao autor de uma ação contra a Eletrobrás.
O maior abuso ocorreu num processo judicial no valor de R$ 5 mil aberto por um cliente contra uma grande instituição financeira. O juiz plantonista condenou o banco, recalculou a indenização em R$ 13 milhões, determinou o depósito desse valor num final de semana e ainda autorizou o uso de maçarico para abrir a porta da agência bancária na comarca. Somente este ano, o CNJ já abriu 113 sindicâncias contra magistrados, ante apenas 15 no ano passado. Entre os investigados encontram-se até corregedores de Tribunais de Justiça.
Nos últimos meses, vários desembargadores e ministros de tribunais superiores passaram a alegar que a autonomia administrativa e financeira das Cortes está sendo esvaziada pelo CNJ. Na realidade, o problema é outro. Até a aprovação da Emenda Constitucional (EC) nº 45, os tribunais tinham tanta autonomia que agiam como se fossem verdadeiras repúblicas independentes, adotando os métodos de trabalho e políticas de concessão de benefícios salariais que bem entendiam.
Foi para resolver esse problema que a EC 45 criou o CNJ, em dezembro de 2004, atribuindo-lhe a tarefa de padronizar a estrutura administrativa dos tribunais, fixar limites para a concessão de benefícios, estabelecer metas de produtividade para a magistratura e fazer o que as corregedorias se negavam a fazer, identificando e punindo juízes indignos da toga. E, como as reportagens do Estado mostraram, o CNJ fez importantes avanços em matéria de modernização e moralização do Judiciário ? que, aliás, temos comentado em nossos editoriais.
Editorial do Jornal Estado de São Paulo, edição de 21/10/09
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Outubro 21st, 2009 às 9:04 pm
Dr. Carlos Zamitth,
Fique surpreso hoje ao me deparar com as portarias de nomeações publicadas no Sait do TJ, dos servidores lotados no Gabinete do Desembargador Cláudio Roessing, e vi que tem duas funcionárias que não são do quadro, porque? se quando ele era do 1 grau, pregava que tinha que ser só funcionários concursados? porque ele tinha que contratar essa ai que trabalhava com o Dr. Lafayet Júnior, (editado). Não nos decepcione Sr. Desembargador, tenho certeza que o Sr. além de honesto é justo.
Outubro 22nd, 2009 às 11:28 am
Comentários como este (processos não arquivados) é que ajudam a disseminar a falsa crença de que a culpa é do Juiz e dos Servidores. Todo Juiz sabe que isso decorre, no mais das vezes, pelo excessivo e desumano trabalho, principalmente nas Justiças Estaduais. Além disso, supor a existência de danos morais e materiais, sem base concreta? O nosso problema é que muitos Juízes se aproveitam do caos para se fazerem de herois, enquanto a Justiça está sendo afundada pela mídia falaciosa e nem um pouco imparcial.
Outubro 22nd, 2009 às 12:37 pm
Se o retrato é desolador, alvissareiras são a constatação e o diagnóstico dessa situação. Só imagino a guerra que deve estar havendo nos porões secretos com a quebra de esquemas consolidados. Se nossas universidades não fossem míopes ou coniventes, a situação de descalabro não teria chegado a esse ponto de comprometer o estado de direito e a nossa democracia. Espero que os métodos usados em Honduras não sejam aqui repetidos. Juízes honestos são uma benção, agora, os egocêntricos falastrões, são uma lástima.
Outubro 23rd, 2009 às 2:13 pm
A Justiça no TJDF é um escândalo. Viram o caso da mordaça imposta ao jornal ESTADÃO? O meu caso, então, é ridiculo. Juiz e desembargadores favoreceram uma estatal acusada de plágio do meu projeto, tudo registrado. Mesmo tendo ganho no primeiro grau, me fizeram perder a ação de indenização mediante dois expedientes desonestos: providenciaram um falso laudo pericial e fecharam os olhos para a denúncia do perito-assistente que apontava 33 falhas no laudo dos peritos - um deles advogado. Quem quiser conferir é só procurar na página do tjdf.gov.br e buscar o processo em nome de TÁCITO SAMPAIO ALVES na 20a. Vara Cível. É só mais um caso semelhante a esses que foram apontados pelo Dr.Carlos Zamith Junior. Guarujá 23/10/2.009
Outubro 23rd, 2009 às 4:23 pm
Sobre a mesma questão, sugiro a leitura da matéria “Limpeza na Justiça”, publicada, na Carta Capital, em 01/10, e que traz uma excelente entrevista com o Min. Gilson Dipp, corregedor do CNJ. A versão online está disponível em http://www.cartacapital.com.br/app/materia.jsp?a=2&a2=8&i=5139
Grande abraço.
Abril 15th, 2010 às 10:27 pm
Há mais de trinta anos…
Filha do Brasil, lesada, aguarda por Justiça
http://www.youtube.com/watch?v=kcqAaG0Y34I
porque…
Grande Golpe causa dano à Filha do Brasil_0001.wmv
http://www.youtube.com/watch?v=4_5-QJm2BNI
Negócio ilegal feito por órgão público traz prejuízos à cidadã brasileira.