O blog do jornalista Simão Pessoa é leitura obrigatória para mim.

Simão é dono de um humor ferino, mas sem ser ofensivo e nos conta histórias saborosas. O relato abaixo, sobre se o padre Nonato Pinheiro “atracava de popa” ou não me fez dar boas risadas.

Setembro de 1958. Desconfiados de que o escritor, poeta e crítico literário padre Nonato Pinheiro atracava de popa, os intelectuais ligados ao Clube da Madrugada incumbiram o poeta Luiz Bacellar de tirar a prova dos nove. O poeta monarquista não se fez de rogado.

Uma tarde, Bacellar e padre Nonato estavam tomando umas cervejas no bar Alemão, na rua Marechal Deodoro, e conversando sobre os poetas simbolistas franceses, quando, sem mais nem menos, Bacellar fez uma pergunta aparentemente inoportuna:

– Padre, dar o cu é pecado?…

O padre Nonato tomou um susto.

– Que é isso, Bacellar?! Eu estou aqui falando sobre Rimbaud e Verlaine e você me vem com uma pergunta dessas? Pôxa, assim não dá… Mas como eu ia dizendo, Verlaine leva a musicalidade e o efeito sugestivo das palavras a um limite até então desconhecido na literatura européia. Somos atingidos pelo efeito dos ritmos e dos sons de qualquer poema simbolista, mesmo que não conheçamos profundamente o idioma em que ele foi escrito.

Cerveja vai, cerveja vem, os dois já ficando levemente embriagados, Bacellar interrompe novamente o escritor:

– Mas, padre, dar o cu é pecado?…

O padre começa a ficar cabreiro:

– Que é isso, Bacellar?! Eu estou aqui recitando um dos melhores poemas de Verlaine e você me interrompe com uma pergunta dessas? Pôxa, meu amigo, assim você está ficando inconveniente… Mas como eu ia dizendo, Verlaine deixou os mais célebres versos desta sedução do movimento simbolista pela música em Canção de outono: Le sanglots longs / Des violons / De l’automne / Blessent mon coeur / D’une langueur / Monotone. Quer dizer, nós somos atingidos pelo efeito dos ritmos e dos sons de qualquer poema simbolista, mesmo que não conheçamos profundamente o idioma em que ele foi escrito. Perceba essa tradução do referido poema de Verlaine: Os lamentos longos / Dos violinos / Do outono / Ferem o meu coração / De um langor / Monótono.

Cerveja vai, cerveja vem, os dois já ficando meio embriagados, Bacellar interrompe novamente o escritor:

– Mas, padre, me explique de uma vez por todas: dar o cu é pecado?…

O padre ameaça perder as estribeiras:

– Olha, Bacellar, não sei por que você insiste nesse assunto, mas já estou ficando incomodado… Pôxa, nós dois aqui, conversando sobre coisas do espírito e você me faz uma pergunta estúpida dessas?… Assim, é melhor a gente ir embora… Bom, mas como eu estava dizendo, o nosso grande poeta Cruz e Souza foi especialista na utilização de imagens ousadas como efeito de sugestão e encantamento musical. Mesmo a morte, na obra do simbolista brasileiro, possui uma terrível musicalidade: A música da Morte, a nebulosa, / Estranha, imensa música sombria, / Passa a tremer pela minh’alma e fria / Gela, fica a tremer, maravilhosa…

Cerveja vai, cerveja vem, os dois já totalmente embriagados, Bacellar interrompe novamente o escritor:

– Mas, padre, só entre nós dois: dar o cu é pecado?…

O padre Nonato sorveu lentamente uma nova tulipa de cerveja, retirou e limpou os óculos num lenço imaculadamente branco, recolocou os óculos, encarou Bacellar nos olhos e informou:

– Olha, Bacellar, desde que seja com moderação…

No dia seguinte, após o relato do poeta monarquista, os intelectuais do Clube da Madrugada teriam suas suspeitas confirmadas.

13 Respostas para “Dúvida cruel”

  1. carlos diz:

    momento de descontração. muito boa piada. Que leiam os “enrustidos” (sem discriminação).

  2. Marcelo Augusto diz:

    Sensacional…. conforme o amigo Carlos falou acima. Que leiam os “enrustidos”……

  3. Marcelo Augusto diz:

    Essa é uma história clássica de Manaus ! Por isso é bom beber “com moderação” …

  4. Stéphanne diz:

    É por isso que leio e recomendo seu blog…

    Abraço!

  5. hermengarda junqueira diz:

    genial! simao eh inteligente, divertido, leve e necessario. O blog do juiz acompanha…

  6. Juarez Silva diz:

    Já tive em outros tempos essa “visão” sobre a inteligência e o “bom pracismo” do Sr. Simão, mas depois dessa abaixo, comigo seu conceito já era…

    Abaixo transcrição na íntegra do texto da coluna “Boca do Inferno” do “Jornalista” Simão Pessoa, de terça-feira, dia 30 de agosto de 2005 , no diário “Correio Amazonense”.

    “MELANINA”

    “ESSA TURMA DE AFRO-DESCENDENTES QUE APORTOU EM MANAUS HÁ DEZ, DOZE ANOS, JÁ COMEÇOU A FAZER ECA. AGORA, ELES QUEREM MELAR O DIA DO CABOCLO, QUE ESTÁ SENDO DISCUTIDO NA CMM, COM O ARGUMENTO SINGELO DE QUE SÓ EXISTEM TRÊS RAÇAS NO PAÍS: BRANCOS, NEGROS E ÍNDIOS. O RESTO, SEGUNDO ELES, É PRODUTO DO FACISMO.

    FACISMO?! PÔ, VÃO SER RADICAIS (E DESINFORMADOS) ASSIM LÁ NA ÁFRICA. EU SOU PARDO, MEU NEGO, E EXIJO O DIA DA CABOCADA! CHEGA DE HUMOR NEGRO!” .

    A diferença de “ferino” para ” virtualmente criminoso” para mim é tênue mas não imperceptível… , sem contar que o mínimo que se espera de um “intelectual ” é que ele conheça bem de um assunto antes de sair emitindo opiniões completamente desembasadas e descontextualizadas…, esse tipo de “intelectualidade” só serve mesmo para reproduzir piadas de botequim…

  7. Daniel Aquino diz:

    Mas o que há de errado com a declaração de Simão Pessoa? A “eliminação” do mestiço (seja caboclo, mulato ou cafuso) pelos movimentos étnicos/raciais militantes é uma constante que já foi denunciada inclusive por um dos mais eminentes historiadores brasileiros: Professor José Murilo de Carvalho (vide artigo “Genocídio Racial Estatístico” extraído do livro “Divisões Perigosas”. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007, p. 111) . A única diferença é que Simão Pessoa usa a linguagem mais desbocada para fazer a mesma reclamação.

    E antes que eu me esqueça: Um ato é criminoso ou não é! O “virtualmente criminoso” é categoria jurídica “virtualmente inexistente”.

  8. Juarez Silva diz:

    Sr. Daniel, o problema é justamente esse…, a análise da questão a partir do senso comum, sem profundidade ou a partir de uma única fonte (ou fontes e conceitos questionáveis pela maioria da Academia) .

    Não apenas o Sr. Simão pecou por “pegar o bonde andando” e emitir uma opinião cheia de equívocos teóricos comuns a quem “não é da área”, mas principalmente pela deselegância e preconceitos expostos que a mentalidade meta-racista do brasileiro, não percebe e naturaliza…

    1- A falar em “TURMA DE AFRO-DESCENDENTES QUE APORTOU EM MANAUS HÁ DEZ, DOZE ANOS, JÁ COMEÇOU A FAZER ECA” e “SER RADICAIS (E DESINFORMADOS) ASSIM LÁ NA ÁFRICA” ele se referia direta e principalmente a mim…, a grande questão por trás disso é um tipo de “xenofobia” ou discriminação de procedência regional que a CF não admite…, além de associar África e desinformação… o que é um preconceito eurocêntrico típico… , pelo que sei nunca precisei de passaporte para me deslocar pelo território nacional…, sou brasileiro, meus documentos tem validade nacional e o meu título de eleitor local me habilita a não apenas escolher os governantes dessa terra, como a me candidatar…, imagine então participar como cidadão nas questões do que também é “minha terra”… por escolha e não por acidente do destino …, ser amazonense é muito mais que simplesmente nascer aqui…

    2- Raça não existe nem nunca existiu… do ponto de vista biológico, mesmo nas equivocadas teorias racialistas “mestiço” nunca foi considerado raça… nem se encaixa no conceito de etnia (que é tribo), ninguém quer negar a miscigenação, apenas evitar que visões errôneas atrapalhem a desconstrução do que essa idéia estapafúrdia de raça produziu na sociedade socialmente estratificada a partir dela…, mas para isso é preciso conhecer bem mais que “Divisões perigosas” , “Não somos racistas” e outros “livrecos” dos “neo-democratas-raciais”, sugiro a leitura de Marvin Harris (antropólogo norte-americano e pesquisador da UNESCO, falecido em 2002) sobre Hipodescendência ou melhor … MUNANGA, Kabengele “Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: Identidade nacional versus Identidade negra”. Belo Horizonte: Autêntica 2004, esse último titular de Antropologia da USP e respeitado nacional e internacionalmente…

    3- Citando: “Em artigo recente sobre a presença negra na Amazônia de meados do XIX, Luís Balkar Pinheiro aponta para [..] o fato de que “o ocultamento da presença negra na Amazônia continua efetivo, mantendo incólume uma das mais graves distorções na escrita da história da região.” (SAMPAIO,1999,s/p) ; em outras palavras, se tem alguém querendo negar ou ocultar alguma coisa não são os militantes de movimentos negros…, nem todos negros do Amazonas “são de fora”, temos bairros tradicionais na capital, no interior remanescentes de quilombos reconhecidos pelo INCRA …, quatro mil “terreiros/casas” de religiosidade de matriz africana…, vatapá em todas as festas…, uma simples consulta a tabela da PNAD/ IBGE vai “revelar” para quem não conhece, que a população de pretos (nem estamos falando em negros= pretos +pardos de origem africana) no Amazonas é DEZ vezes maior que a indígena… , mas O MITO gerado pelo desconhecimento e preconceito de muitos não enxerga isso.

    Por fim, ninguém é contra o DIA DO CABOCLO ou mesmo quanto ao reconhecimento e valorização da cultura cabocla… (que é o mesmo caso dos Gaúchos, uma cultura dos pampas, não um grupo étnico ou racial), o que acontece é que havia gente teoricamente equivocada, tentando enrolar gente teoricamente ignorante na temática a criar uma situação esdrúxula de “inventar ” uma “nova raça” chamada “mestiça” na contra-mão do processo de desracialização iniciado pelos movimentos negros, indígenas, pela academia e governo federal…

    Ah! e ao contrario do que o Sr. Simão e o senso comum determina, o termo PARDO foi criado no 1o. censo brasileiro em 1872, com o intuito exclusivo de contabilizar em separado os NEGROS LIVRES (independente de cor, miscigenação etc..), portanto PARDOS, juntamente com os PRETOS fazem parte da POPULAÇÃO NEGRA (descendente de escravos) e isso OFICIALMENTE a 137 ANOS… não é “invenção” da militância negra nem “Genocídio Racial Estatístico” ; a questão toda se resume a eliminar a classificação COR/RAÇA atual (racializada) utilizada pelo IBGE e substituir por outra mais pertinente (Ancestralidade Geográfica) o que eliminaria a atual classificação PARDO, permitindo de forma mais coerente ao sentimento de pertença ancestral, o reagrupamento desses “pardos” ou em grupo AFRODESCENDENTE ou NATIVODESCENDENTE (caso dos “caboclos” que hoje são contados como afrodescendentes…), portanto não estamos querendo “eliminar ” ninguém, muito pelo contrário, a idéia é apenas reorganizar as coisas dentro de critérios coerentes, não atrasados e equivocados como pretende essa turma que “fez a cabeça” do Sr. Simão e de alguns outros desavisados …

    Quanto ao “virtualmente criminoso” foi exatamente essa a intenção; como a agressão atinge o objetivo prático, mas é de difícil materialização processual, acaba não sendo punida pois é como disse corretamente “virtualmente inexistente” (assim como acaba ocorrendo com a imensa maioria dos crimes raciais cometidos desse país).

    Mas isso é assunto longo e complexo demais para ser tratado em um post de blog…, convido-o e a quem estiver interessado em conhecer a temática a partir de referências sérias, a ler meu artigo ” Não queríamos ser racistas: uma reação aos que insistem em dizer que não somos uma nação com problemas de cor” publicado científicamente pela Revista dos Núcleos de Estudos Afro-brasileiros e reproduzido em vários outros veículos. : http://www.neabbrasil.com.br/revista/index.php/neabbrasil/article/viewFile/6/7

    Bom é isso, Paz e Bem !

  9. Daniel Aquino diz:

    Cito um livro que contém um artigo daquele que é considerado um dos dois maiores historiadores brasileiros vivos (haveria uma disputa entre ele e Evaldo Cabral de Melo sobre quem seria o número 1) e o Sr. o qualifica como “livreco” de “neo-democrata racial”. Deprecia obra e autores sem dizer uma linha sobre o artigo que citei. Fica claro que seu critério para julgamento de obras e idéias não é o conteúdo ou o respaldo intelectual, mas sim a carga ideológica “neo-racial” contida. Discutir com base nesses PRECONCEITOS é dar murro em ponta de faca. A honestidade intelectual é requisito fundamental para o debate sadio. Nada mais tenho a comentar. Paro por aqui. Passar bem.

    ps: Dr. Zamith, embora eu nada mais tenha a responder ao Sr. Juarez, autorizo a publicação de meu e-mail para que aquele não pense que minha recusa em prosseguir a discussão seja expediente de fuga. Obrigado.

  10. Juarez Silva diz:

    Sr. Daniel, fique tranquilo, não penso que o encerramento unilateral da discussão seja expediente de fuga, o tema é complexo e demandaria muito tempo e espaço em um tópico cujo assunto principal não seria o que incidentalmente toquei.

    Quanto a questão da “linha” de comentário esperada sobre a “obra” citada, achei que além de exigir muito mais que “uma linha”, não poderia ser tratada com a profundidade devida sem uma grande conceituação prévia, que garantisse uma contra-argumentação honesta e esclarecedora. Por tal motivo foi que postei LINK para um artigo meu de 32 laudas… sendo que em parte delas são expostas as linhas gerais da argumentação neo-democrata-racial (por sinal extremamente repetitivas entre tais autores, tanto que o livro citado é uma coletânea) e nela faço uma contra-argumentação pontual e sempre que pertinente, referenciada.

    Mas se preferir tenho outro artigo bem mais específico no qual trato diretamente da “literatura neo-democrata-racial”, se chama “Divisões perigosas na cabeça do brasileiro ‘não-racista’ ” disponível em http://www.movimentoafro.amazonida.com/divisoes_perigosas_na_cabeca_do_brasileiro.htm ; também publicado entr outros pelo LPP-Laboratório de Políticas da Cor, da UERJ-Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

    Se isso não for honestidade intelectual…, não sei o que é…

    De qualquer forma, me coloco a disposição para em querendo, estender o debate em espaço mais apropriado, meu email e endereço de blog (no link do nome) estão sempre disponíveis para quem se interessa em dicutir sobre o assunto.

    Paz e Bem !

  11. Jorge Candido S. C. Viana diz:

    Será que não seria o momento de convidar o sr. Juarez Silva para tomar umas cervejinhas, e fazer-lhe a mesma pergunta que foi feita ao padre…

    ET. não conheço nem privo da amizade de nenhuma das partes.

  12. Juarez Silva diz:

    Ilustre Sr. Jorge, será que não seria o momento de cada um se preocupar com o próprio “fiofó″ ou coisa mais útil ?, piadinhas homofóbicas, racistas, sexistas, etc…, parecem ser muito caras à quem não tem compromisso/consciência social nem respeito à diversidade…; logo, não é de se estranhar certos posicionamentos reacionários e equivocados com relação a coisas de real importância…

  13. Leão Alves diz:

    O jornalista Simão Pessoa possui muitos leitores em todo o AM. É um “registro vivo”.
    Sobre o assunto abordado, referente à identidade cabocla e mestiça, gostaríamos de deixar o link http://nacaomestica.org/blog4/?p=620 onde estão disponibilizados o vídeo e o texto do pronunciamento, no dia 05/03/2010, do Movimento Pardo-Mestiço Brasileiro (Nação Mestiça) e da Associação dos Caboclos e Ribeirinhos da Amazônia na Audiência Pública sobre a Constitucionalidade de Políticas de Ação Afirmativa de Acesso ao Ensino Superior convocada pelo ministro Ricardo Lewandowski do Supremo Tribunal Federal. Embora já existam em diversos países há décadas movimentos de defesa da identidade mestiça (caboclos, mulatos, cafuzos, etc.), eles são relativamente novos no Brasil (2001, Manaus; 2002, Salvador). Neste momento em que há um importante debate nacional sobre políticas de ação afirmativa, cotas raciais, etc., e em especial num Estado como o nosso com numerosa população mestiça cabocla, é importante divulgar informações sobre o tema. Sobre o DIA DO CABOCLO (24 de junho), ele é data oficial do Estado do AM e do Município de Manaus. Há também do DIA DO MESTIÇO (27 de junho), que é data oficial no AM, RR e PB e nos Municípios de Manaus e Boa Vista.
    Grato.

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