Kennet ColganA Revista Piauí publicou interessante matéria com um inglês chamado Kennet Colgan. Viajado, ele já percorreu pelo menos trinta países mundo afora. Da Austrália a Burkina Faso, do Japão ao Haiti. Domina domina quatro idiomas (grego, espanhol, francês e italiano), além do inglês. Agora em janeiro, Colgan, de 49 anos, fez sua quarta expedição ao Brasil para um primeiro batismo de Amazônia. As coisas nem sempre transcorreram conforme o imaginado, como ele relata no seu diário, transcrito abaixo.

DOMINGO, 25_Tomo um banho, frio como sempre, e visto uma camiseta chinesa de manga comprida. Aliás, caso alguém me peça para resumir minha experiência amazônica, o primeiro conselho seria o seguinte: traga camisetas de manga comprida. Usá-las diminui em 90% a área que os mosquitos dispõem para poder picar.

Na última excursão em grupo (os demais vão embora hoje à tarde), visitamos a casa de alguns caboclos da região. A moradia é simples, telhado de sapê, com dois ambientes: um é a cozinha, o outro é onde se faz de tudo menos cozinhar. Doze pessoas moram aqui. A linha escura na parede indica até onde chega a água das cheias de junho e julho. Todos dormem em redes. A água que bebem vem direto do rio. Luz pergunta como eles a tratam - eles não a tratam. Quando nos oferecem chá, ninguém aceita. Nem mesmo o capitão. Por aqui se joga futebol aos domingos, como hoje, no lago Piranha. Um dos moradores nos mostra uma bola de borracha sendo feita pelo filho. Parece boa, quica bem. Eles extraem látex da seringueira para mostrar aos hóspedes do hotel. Somos convidados a ir até o local da extração, mas, no caminho, vislumbro dois leitões soltos e imediatamente me dirijo até eles. São os maiores animais que vi até agora na minha exploração amazônica.

Admiro muito os porcos, animais nobres, intelectualmente curiosos e muito inteligentes que receberam um papel ingrato dos homens. Esses dois são muito bonitos, rosados e com manchas pretas. Um permanece sob um toldinho de madeira, enquanto o outro fuça e grunhe alegremente. Não acho bom chegar muito perto, em respeito ao espaço deles.

Dou adeus aos quatro parceiros de expedição que partem. Restam apenas Antônio, o capitão e eu. Em nova descida pelo rio, fiquei tentando imaginar o que torna tudo tão calmo e pacífico. Em parte, são os diferentes sons, pois o silêncio, na mata, nunca é absoluto. Apenas não se ouve os ruídos aos quais estamos habituados. Ou será que, a despeito de algumas casas aqui e ali, e do visível desmatamento, me sinto em um lugar intocado pelo homem? Vamos conferir uma enorme árvore que foi poupada pelos madeireiros. Por algum motivo, só agora percebo que o lago é mata alagada. O que você vê na superfície não está boiando: é o topo de uma árvore cujas raízes estão fincadas no solo, 6 metros abaixo do nível do rio. De repente, sinto minha mão doer. Uma enorme formiga está na junta do meu dedo, e me pica. O que uma formiga faz em um barco?

De volta ao hotel. Há um casal americano que parece ser legal, mas há também um sujeito que imagino ser holandês (acertei de novo - sou bom nesse negócio de adivinhar nacionalidades). Ele fala um português razoável, com aquele ar de autocongratulação que os holandeses têm (mas lá pelas tantas eu o ouvi usando a palavra tarântula em vez de tartaruga - bobão). Também apareceu um grupinho de argentinos metidos.

Quando volto para meu quarto e acendo a luz, vejo um enorme inseto se esgueirando pela minha cama. Devido à parca iluminação, não consegui ver onde se escondeu. Algo cai no meu pescoço quando passo pelo ventilador. Não me mordeu, mas eu quase enfartei. Passo repelente nos lençóis, nos pés da cama, em tudo. Acordo às duas da manhã. Ouço um inseto que parece uma pessoa roncando - mais tarde, no café da manhã, ouço os americanos dizendo que era ronco mesmo.

SEGUNDA-FEIRA, 26_Acordo. Meu dedo indicador foi picado. Dói bastante e por isso aplico minha pomada de cortisona. Quem inventar uma pomada dessas que realmente funcione vai ficar rico. As duas que eu trouxe não servem para nada. Mostro o dedo para Antônio. Ele o examina com olhos de quem tem ancestrais que viveram na floresta por várias gerações e informa solenemente que aquilo foi feito por “algum inseto”. E eu aqui pensando que um jacaré tivesse invadido meu quarto e me atacado. Na verdade, Antônio é de uma região montanhosa ao norte, na fronteira com a Guiana, e não um homem da floresta.

Seguimos de barco para uma parte do rio coberta por vegetação. à primeira vista, parece um viçoso carpete verde pelo qual podemos caminhar - mas quem tentar, vai acabar sob 3 metros de água. Trata-se de uma planta popularmente chamada de “arroizão”, por se parecer com o arroz. O capitão informa que ela pode matar uma pessoa, mas acho sua explicação, assim como tudo o mais que ele diz, altamente incompreensível. A coisa vai ficando tão densa que nos pomos a remar para não danificar o motor. Pensei em segurar firme no arroizão e ir puxando o barco, mas, por via das dúvidas, achei melhor não: poderia liberar os tais poderes letais da planta.

Aportamos no nosso destino: um local onde se produz farofa (farinha de mandioca) e onde faz um calor absurdo, apesar de ser coberto por um telhado de sapê, aberto nos quatro lados. O calor vem de dois enormes fornos de barro sobre os quais reinam dois panelões de aço. A mandioca é colhida, descascada e colocada de molho por muitos dias, para a eliminação de parte do cianeto. O resto sai no cozimento final. Em seguida ela é triturada em um moedor movido a motor de barco, peneirada e cozida. Dois sujeitos sem camisa, pequenos e fortes como todos os homens daqui, seguram algo que se assemelha a um remo para mexer a montanha de farinha amarela nas panelas. O mais jovem pega uma colherada e joga para o alto. Bonito efeito ao sol. A cada 50 quilos produzidos, eles ganham 15 reais. Sou convidado a ajudar no processo. Vou peneirando, me sentindo virtuoso.

Assim como na produção da borracha de ontem, tudo é muito fascinante até que você entenda o processo. Depois, é entediante. Vamos até a plantação propriamente dita e na volta um dos caboclos começa a contar uma história. Ele fala tão lentamente e baixo que se torna difícil entender o que diz - tanto quanto nosso capitão. Antônio, então, assume o papel de tradutor para um português que entendo: é a história de como o narrador matou uma onça (Shakespeare usa a palavra ounce para um grande felino em Sonho de uma Noite de Verão).

Na volta, Antônio avista um jacaré que até eu consigo ver. O capitão solta um grito e paralisa o barco. Ele e Antônio correm para a margem, e o primeiro começa a subir numa árvore. Eu permaneço no barco, que não foi amarrado e, por sorte, não fiquei à deriva, sozinho, no meu último dia aqui. O capitão desce da árvore segurando uma preguiça fêmea de três garras, bem menor do que a de duas garras que vi na Costa Rica. Fico com pena, mas não mando largar o pobre bicho - na verdade, até tirei uma foto. O animal me lança um olhar de sofrida reprovação. Ao final, o bicho é colocado de volta ao pé da árvore e ele a escala com digna lentidão. Mais adiante, Antônio vê uma cobra em outra árvore a 3 metros de onde estamos. O capitão sugere, em vão, que ele vá pegá-la.

Depois do almoço, cinco argentinos, dois brasileiros, Antônio, eu e o capitão Tucano, sem falar na nossa bagagem (um dos argentinos trouxe um violão!), embarcamos para a viagem de volta. O barco me parece perigosamente superlotado. Não me senti nada seguro, mas o resto dos passageiros nem ligou.

Começa a chover. Para piorar, o senhor Tucano nos leva por um caminho diferente do da vinda. Ele passa pelo maldito arroizão. Antônio repete que a planta cheia de espinhos pode matar se chegar à sua garganta, mas não explica como ela conseguiria percorrer esse caminho. Remamos mais.

Chegamos a um trecho onde as copas das árvores se juntam e a água parece uma sopa pouco apetitosa, cheia de troncos podres e vegetação. É a chamada “cachoeira”, que, para meu alívio, é o nosso destino.

TERÇA-FEIRA, 27_Uma embarcação de maior porte nos devolve a Manaus. O que eu achei do Amazonas? É claramente uma experiência que gostei de ter tido. Notável. Mas se você quer ver animais - o propósito maior do grupo -, devo dizer que o Pantanal tem mais a oferecer. Excetuando-se os pássaros.

(A continuar)

Aqui, a 1ª parte do relato de Ken.
Aqui, a 2ª parte.

Uma Resposta para “Um inglês na amazônia - Parte III”

  1. jose diz:

    bom, vou voltar pra ler os outros 2!!

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