QUINTA, 22_Táxi para o Museu do Índio, administrado por missionários salesianos - segundo o Footprint, eles são os mesmos que colaboraram na destruição da cultura indígena. Este fato dá um toque ardido à interessante e pobremente apresentada exposição - com legendas apenas em português. Anotei um monte de palavras para procurar no dicionário.
Vou ao banco trocar dinheiro. Eles não trocam. Claro que não. Que idéia a minha, de achar que seria possível trocar dinheiro em banco! Descubro que a coisa é feita em casas de câmbio.
Amanhã de manhã vou para a floresta.
SEXTA, 23_Encontro com o resto do grupo. Há dois italianos monoglotas, Santino e Enzo, este bastante interessante. Estão no Brasil para um encontro ambientalista em Belém. Há também um casal. Ele me parece muito francês: tem o ar indefeso que os homens franceses transmitem quando estão fora do ambiente francófono (na verdade, ele é suíço, o que dá na mesma, mas, para ser justo, devo dizer que ele fala espanhol). Ela é mais exótica (chilena). Nosso guia, Antônio, um índio genuíno (mas não da região amazônica), se apresenta de trança. Ele é forçado a se comunicar com o grupo em espanhol, pois é a única língua que Enzo e Santino entendem um pouco (ênfase no “pouco”):
Antônio: Son vegeterianos?
Santino: Italiani, si.
Descubro que Santino tem uma imensa coleção de sapatos, a maioria deles pouco apropriada para o terreno que iremos percorrer. No momento ele está de sandálias e meias brancas (mas devo confessar que eu mesmo estou usando um paletó de linho branco que comprei para ir aos restaurantes badalados de São Paulo, e que ficou todo amarrotado na mala). Difícil acreditar que estamos em um rio (tecnicamente, dois rios) e não no mar: são quilômetros e quilômetros de largura. O barco segue um padrão que se repetirá sempre: popa baixa na água e a proa para cima. Passamos por postos de gasolina flutuantes. Paramos no “encontro das águas”. Aqui, o rio Solimões (que só é chamado de Amazonas após percorrer quilômetros vindo do território peruano) e o rio Negro correm lado a lado por 6 mil metros, sem que suas águas se misturem. É uma visão inquietante. Solimões significa “água suja” em alguma língua indígena, e é cheio de sedimentos e muito profundo.
Dali seguimos para o Porto da Várzea, onde passeamos pelo mercado (o suíço precisava comprar uma capa de chuva). Duas crianças, aparentando 10 anos, passaram a cavalo. Não imaginava ver cavalos aqui. As vitórias-régias são gigantes: quase 2 metros de diâmetro. Passamos por uma igreja evangélica que, por alguma razão, tem em seu entorno estátuas de urubus em várias poses (que palavra esplêndida, “urubu”). Levo um susto quando uma das estátuas se mexe: as aves são de verdade!
Seguimos numa velha kombi, todo o grupo empilhado mais as nossas malas e provisões - melancias, galões de água enormes etc. A estrada, que não é asfaltada, está enlameada pela chuva. O motorista habilmente gira a direção para a direita, depois para a esquerda e o carro consegue prosseguir, serpenteando pelo caminho. Todas as casas daqui, as chamadas palafitas, são erguidas sobre estacas para protegê-las de enchentes.
Depois seguiríamos de barco até o hotel, mas tivemos que parar após alguns metros, pois começou a chover. E chover. Chuva mesmo! Pelo menos agora sei por que, em inglês, a Amazônia é conhecida como rain forest. Esperamos meia hora até a torrente acalmar um pouco, mas a atmosfera permaneceu ainda abafada (atmòs significa vapor em grego - esses caras entendiam das coisas). Paramos para visitar um armazém: até agora não sei se o dono era um velhinho ou uma velhinha barbada.
SÁBADO, 24_Acordo sem qualquer mordida de inseto. 2 a 1 para mim. Após o almoço, saímos num bote motorizado para observar animais. É bastante divertido, apesar da chuva. Chuva, aliás, não parece ser problema aqui (nem no Brasil como um todo): chove, você se molha, pára de chover, vinte minutos depois você e suas roupas estão secos de novo.
A parte menos atraente do passeio é quando Antônio ou o capitão do bote avistam algum animal, coisa que fazem com destreza. Eles apontam em direção ao local, eu me esforço para enxergar o que talvez seja um bicho-preguiça ou uma jibóia (não tenho muita certeza), mas não consigo detectar os jacarés nem as iguanas. Não que eu me importe, pois já estive bem perto de um bicho-preguiça na Costa Rica e filmei um jacaré no Pantanal.
A chuva aperta. Meus óculos estão encharcados, e uma desagradável mistura de dois tipos de repelentes, protetor solar, suor e água escorre nos meus olhos, fazendo-os arder muito. Não consigo ver nada por vários minutos, muito menos a iguana que Antônio indica alegremente.
É bom estar ao ar livre. O barco passa por casas estranhas, botos nadando, belos pássaros voando (especialmente o jaçanã, com suas asas amarelas) e a sensação de uma parede verde em ambos os lados, que parece não ter fim. Um profundo sentimento de paz.
No jantar, comemos as piranhas que pescamos (quer dizer, Enzo e o capitão) ontem. No Pantanal, piranhas são usadas para fazer sopa - bem melhor do que a fritura daqui. São peixes cheios de espinhas e com espantosa pouca carne para um carnívoro. Depois da refeição, tomando caipirinhas, fico sabendo que Julien e Luz também vão para Belém, para o mesmo “encontro ambientalista” de Enzo e Santino, que na verdade é o Fórum Social Mundial. Sinto-me um bobão por não saber do que se trata. Enzo, que descubro ser comunista, nos conta sobre sua recente viagem a Cuba. Soa horrível.
Antônio se junta ao grupo e, durante a conversa, conta que seu primeiro nome é “Clever” - esperto, em inglês. A princípio, pensei se tratar de uma figura de linguagem, do tipo “perigo é o meu nome”, mas esse é seu verdadeiro nome: Clever Antônio. Apesar do fato de ele realmente ser esperto, acho melhor que continue a se apresentar como Antônio. Santino, gentilmente, me oferece um isqueiro de sua enorme coleção para eu acender a vela depois que desligarem a luz.
Aqui, a primeira parte do diário do Ken.
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Agosto 2nd, 2009 às 3:31 pm
:-) “delicioso” e muito hilário o “olhar alienígena” sobre nossa região…. aonde é que o Sr. consegue estas coisas ???? :-) :-)
Agosto 2nd, 2009 às 5:59 pm
Revista Piauí, Juarez.
Agosto 2nd, 2009 às 11:35 pm
Beleza, Dr. Zamith, aqui no Rio Grande do Sul um francês, Auguste Saint Hilaire fez um tour no estado no século XIX. Parece o texto do inglês em que pese o conforto que ele está tendo em Manaus. O francês realizou a maratona de a pé, a cavalo ou de carroça.
Parabéns pela transcrição.
Agosto 3rd, 2009 às 9:38 am
Muito bom caro colega. O inglês tem mente aberta e é muito perspicaz. Só com os olhos de alguém de fora que constatamos o quão a nossa é estreita. um grande abraço
Outubro 1st, 2009 às 5:45 pm
adorei muito legual mesmo